segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PLÍNIO SANTOS FILHO E O ESPAÇO VITRUVIO, UM BERÇÁRIO DE ARTISTAS

No coração das vielas históricas  do Poço da Panela, onde ainda se observa uma antiga forma de calcetagem das ruas, há o atelier e espaço de exposições Vitruvio.
Lá, em meio ao arvoredo dos seculares oitões do bairro de Casa Forte, vamos encontrar Plínio Santos Filho em seu reino de criação e facilitação de experimentos de arte.
Plínio já ensinava desenho nos anos 90, num espaço cultural no bairro das Graças, o Hera Sagitário. Tendo se mudado para os Estados Unidos, onde também cultivou o interesse pelo aprendizado da Física, na verdade o exercício da criação, e o ensino das artes nunca se ausentaram dos seus planos. De volta ao Recife, Plínio inaugura em 2009 o Espaço Vitruvio, galeria de arte e serviço artístico.
A existência de um espaço assim para o nosso universo cultural é importantíssima. Em meus primeiros anos de aprendiz também tive a oportunidade de fazer parte de um atelier de artes e ofícios, que era oferecido por alguém com um espírito de mestre como o Plínio Santos, um curso com fundamentos tradicionais de belas artes de onde muitos artistas surgiram e estão na ativa até hoje. 
Comentando sobre sua prática de ensino, Plínio assegura que a persistência em oferecer orientação no desenho da figura humana, suas proporções, a necessidade de muita observação e prática, desenvolve não apenas o desenho da anatomia humana, mas também as sinapses necessárias para a resolução da composição.
Raramente em um curso para principiantes se vê os aprendizes apresentarem peças de desenho tão elaborado, expressos com maturidade, e com forte veia acadêmica, como os que são vistos nas paredes da exposição de final de ano, que encerrou neste domingo, 29 de Novembro 2015.
Plínio acrescenta que seu papel é oferecer elementos de aprendizado que possam compor o processo de criação com a mesmas características dos antigos clássicos, que são apresentados em slides e outras formas de audio visual, para que se forme o traquejo na observação das obras, com seus inúmeros exemplos de como se conseguir a perfeição do traço.
Isto livra o aluno de ficar perdido, tentando encontrar um sentido para dar vazão aos seus exercícios. É um roteiro seguro.
Além disso, Plínio verifica qual a predisposição dos aprendizes, para que não se venha a atropelar a originalidade de cada um. Havendo o cuidado de zelar pela linguagem dos que já apresentam um determinado estilo em formação.

É uma boa pedida a visita ao local. É bastante acolhedor e aprazível. A um canto, na área comum, é possível ver uma diversidade de prensas e uma estante abarrotada de pedras de litografia. O  que mostra o quanto lá se pratica gravura, além do desenho e da pintura. Não só a litogravura, mas também as gravuras em linóleo e outras técnicas são aprendidas no local. É um lugar para não sentir o peso do mundo, e ficar à vontade para dar expressão às imagens que se quer convidar a esta realidade.


A reunião de pessoas com sentimentos artísticos gera um convívio gracioso, que ajuda a soltar as asas da imaginação.
Fazemos votos de que ainda se venha a ter muitas oportunidades de visitar mostras dos artistas saídos desta incubadora.

Confira abaixo algumas obras da exposição de final de ano do Espaço Vitruvio:






















domingo, 29 de novembro de 2015

A ICONOGRAFIA DE RINALDO SILVA

Rinaldo é um artista completo. A sua expressão artística é o resultado de todo o seu ser em movimento, na experiência de projetar-se, das impressões trazidas na lembrança, dos contextos que a mente junta, como blocos que se concertam, numa harmonia feita de módulos de composição.
Enquanto a arte acontece, na fornalha do espírito humano, traçam-se linhas, deixam-se cores largadas, aqui e ali, num espaço destinado a isso. Compondo, com decisões diversas, o que vai se agregando ao universo imaginado.
A arte em Rinaldo, é uma expansão da alma, numa grafia fantástica, refinadamente despretensiosa.
Vai brotando como contos de reinos imaginários, sobrepondo-se com referências da mitologia.
Ao chegar em seu universo de criação, na rua da Glória, bairro da Boa Vista, fui logo associando os desenhos com que me defrontei às obras de Picasso. A razão é que sendo Picasso um mestre da pintura que rompeu com todos os cânones da produção pictórica, em função da liberdade de compor e criar com desprendimento de regras, sem se fundamentar em modelos estabelecidos da figura humana, torcendo e organizando a forma como melhor convém ao ímpeto criador e ao contexto dos elementos presentes na grafia, vi em Rinaldo um artista que consegue alcançar isto com precisão. Seus elementos de criação ajustam-se uns aos outros de modo fluente, mas nisso não transparece um esforço, para conseguir este resultado, parecendo tudo muito natural.
Na luz de seu atelier, no coração de uma localidade eivada de história, é como se Rinaldo fosse um raio de vórtice, como os que saem das mãos dos super-heróis, fincando sua presença no contexto da imortalidade, nos rastros de tempo que gravados ficam, como algo que precisa acontecer.

Neste mês de Novembro de 2015 Rinaldo fez um OPEN HOUSE em seu agradável sobrado. Com os chegados e entes queridos que nessa egrégora habitam, vê-se o bem que a arte faz ao convívio social. 


*

Atelier de Rinaldo Silva - Rua da Glória, 310 - Boa Vista.


sábado, 28 de novembro de 2015

A LIBERDADE E A NATUREZA NA ARTE DE JOSÉ DE BARROS

O ímpeto da arte, tão presente em Pernambuco, encontra em José de Barros um de seus eloquentes expoentes.
Eu fazia arquitetura na UFPE nos anos oitenta, circulava pelo CAC com a minha régua T e um canudo de plástico preto, onde guardava os estudos. Morria de tédio. O centro de artes para mim era o lugar onde eu vivia uma prisão, cercado de liberdade por todos os lados. Uma das formas de liberdade era a música, que ouvia enquanto passava. A outra era a arte de José de Barros, que via exposta aqui e alí, nos corredores. Um dia enquanto tomava um suco na lanchonete, olhando uma obra coletiva da turma de Zé de Barros, decidi largar a arquitetura, e me dedicar à pintura.
Certa vez, nos anos 90, encontrei o Zé numa exposição, no bairro das Graças. Eram pinturas sobre uma viagem que ele tinha feito a Fernando de Noronha. Do nosso papo, naquela tarde, um conselho que nunca esqueci. Falei que pintava abstrato, e ele me respondeu:
"Quando a pintura é abstrata, deve ter um pouco da natureza, nem que seja em pensamento, no momento de pintar."
Grande pessoa, artista inigualável. José sempre situou-se como uma pessoa que irradia uma grande serenidade, ao menos é o que pude deduzir em nossos poucos e breves encontros.
Mas em seu íntimo, na fornalha que faz brotar o desejo de fazer arte, sua inquietude se manifestava e se realizava em uma vasta produção.
Recentemente pude resgatar o contato com as obras de José de Barros, na exposição "21 ANOS SEM JOSÉ DE BARROS" que acontece no parque Dona Lindu, galeria Janete Costa.
Logo de cara somos surpreendidos por imensos painéis que escorrem das paredes com elevado pé direito.
Grandes composições que revelam a forte necessidade de se expressar com gestos largos, expansivos.
No primeiro andar mais uma dessas obras gigantes. Segundo uma sobrinha de José de Barros, presente na abertura, o seu tio haveria chegado de uma viagem à Amazônia muito impressionado com a natureza da região. 
Ao retornar, fechado em seu atelier no bairro de Casa Forte, desenvolveu essa técnica de pintar em largos painéis de papel, com lápis de cera e outras técnicas. Como a querer envolver o observador na amplidão da selva.
É marcante o predomínio do verde em muitas de suas obras. Uma necessidade de apresentar a natureza num ato de amor à criação.
Uma outra característica de seu traço, quase uma marca da pintura em Pernambuco, a partir dos anos 80,  é o desenho despojado, deliberadamente infantil, mas com o controle de toda a composição. Como a pintura dos puros profetas,  os Nabis, do movimento Francês do Século 19. 

Em suas primeiras obras José de Barros impressiona com desenhos de formas humanas a compor expressionismos.
É uma alegria saber que há os que trabalham pela preservação do seu legado, como os familiares do artista e o coordenador da mostra, o também artista Izidorio Cavalcanti.

SERVIÇO
Exposição 21 anos sem Zé de Barros
Onde: Galeria Janete Costa - Parque Dona Lindu, s/n, Bairro do Recife
Visitação: Terça a sexta, das 14h às 20h e sábados e domingos, das 14h às 20h, até 10 de janeiro de 2016
Informações: 3355-9832