sábado, 28 de novembro de 2015

A LIBERDADE E A NATUREZA NA ARTE DE JOSÉ DE BARROS

O ímpeto da arte, tão presente em Pernambuco, encontra em José de Barros um de seus eloquentes expoentes.
Eu fazia arquitetura na UFPE nos anos oitenta, circulava pelo CAC com a minha régua T e um canudo de plástico preto, onde guardava os estudos. Morria de tédio. O centro de artes para mim era o lugar onde eu vivia uma prisão, cercado de liberdade por todos os lados. Uma das formas de liberdade era a música, que ouvia enquanto passava. A outra era a arte de José de Barros, que via exposta aqui e alí, nos corredores. Um dia enquanto tomava um suco na lanchonete, olhando uma obra coletiva da turma de Zé de Barros, decidi largar a arquitetura, e me dedicar à pintura.
Certa vez, nos anos 90, encontrei o Zé numa exposição, no bairro das Graças. Eram pinturas sobre uma viagem que ele tinha feito a Fernando de Noronha. Do nosso papo, naquela tarde, um conselho que nunca esqueci. Falei que pintava abstrato, e ele me respondeu:
"Quando a pintura é abstrata, deve ter um pouco da natureza, nem que seja em pensamento, no momento de pintar."
Grande pessoa, artista inigualável. José sempre situou-se como uma pessoa que irradia uma grande serenidade, ao menos é o que pude deduzir em nossos poucos e breves encontros.
Mas em seu íntimo, na fornalha que faz brotar o desejo de fazer arte, sua inquietude se manifestava e se realizava em uma vasta produção.
Recentemente pude resgatar o contato com as obras de José de Barros, na exposição "21 ANOS SEM JOSÉ DE BARROS" que acontece no parque Dona Lindu, galeria Janete Costa.
Logo de cara somos surpreendidos por imensos painéis que escorrem das paredes com elevado pé direito.
Grandes composições que revelam a forte necessidade de se expressar com gestos largos, expansivos.
No primeiro andar mais uma dessas obras gigantes. Segundo uma sobrinha de José de Barros, presente na abertura, o seu tio haveria chegado de uma viagem à Amazônia muito impressionado com a natureza da região. 
Ao retornar, fechado em seu atelier no bairro de Casa Forte, desenvolveu essa técnica de pintar em largos painéis de papel, com lápis de cera e outras técnicas. Como a querer envolver o observador na amplidão da selva.
É marcante o predomínio do verde em muitas de suas obras. Uma necessidade de apresentar a natureza num ato de amor à criação.
Uma outra característica de seu traço, quase uma marca da pintura em Pernambuco, a partir dos anos 80,  é o desenho despojado, deliberadamente infantil, mas com o controle de toda a composição. Como a pintura dos puros profetas,  os Nabis, do movimento Francês do Século 19. 

Em suas primeiras obras José de Barros impressiona com desenhos de formas humanas a compor expressionismos.
É uma alegria saber que há os que trabalham pela preservação do seu legado, como os familiares do artista e o coordenador da mostra, o também artista Izidorio Cavalcanti.

SERVIÇO
Exposição 21 anos sem Zé de Barros
Onde: Galeria Janete Costa - Parque Dona Lindu, s/n, Bairro do Recife
Visitação: Terça a sexta, das 14h às 20h e sábados e domingos, das 14h às 20h, até 10 de janeiro de 2016
Informações: 3355-9832