Aconteceu nesta sexta 11 de março a inauguração da exposição Maternidade, de Vânia Coutinho.
A mostra, que se encontra aberta à visitação na galeria MOMA, dos amigos Marco Monaldi e César Machado, impressiona à primeira vista.
Damos de cara com imensas telas de rico colorido, onde uma profusão de figuras humanas se reúne num diálogo silencioso. Onde os gestos de olhar, interagir e tocar, são testemunhos da riqueza de existir, cenas de variado movimento que nos lembram o quanto a paz é uma grandeza inestimável, pois é onde os seres se reúnem para celebrar a vida, e ter o prazer de contemplar as gerações, ampliando a percepção da mente universal que vai chegando, no nascimento de cada criança.
A palavra MATERNIDADE, diz muito sobre os elaborados movimentos humanos que se acolhem mutuamente, se afagam e divertem, ou sob a profundeza da percepção, tornam-se sérios, pensativos. Mas continuam ligados, por cordões invisíveis que são mantidos pelo intento de zelar uns pelos outros.
A grande mãe desse universo é a artista, que vai passeando num flerte com a terceira dimensão, em seus empastes e relevos, suas generosas texturas, que ajudam a conferir um sentimento de materialidade, diante da imagem, que por natureza é mais sutil do que o tato. A textura então, o relevo, faz o cérebro lembrar o contexto material da cena.
As cores são livres, como é livre o sentimento que impulsionou Vânia Coutinho a se suprir de todos os elementos disponíveis para a criação plástica, desde o gesso ao apurado das cores, num diálogo audacioso, pouco comum na prática de muitos artistas, que preferem paletas mais restritas, pelo medo de errar... Mas Vânia, destemida, se lança ao abraço das cores, e o faz com equilíbrio, sem perder-se em dissonâncias cromáticas, Coutinho se revela uma artista madura, com domínio de sua busca visual.
Suas figuras não possuem a rigidez do desenho de um Caravaggio, mas, com toda a leveza, convencem pelo conjunto, agradam por se revelar a verdadeira arte, onde o traço é só mais um aspecto, que não deve se sobressair ao plexo solar, de onde brota toda a emoção no momento criativo.
São como cenas barrocas, e o espaço da tela é preenchido por um conjunto de dramas paralelos, que cativam a observação.
Eis a princípio o conjunto de impressões acerca da artista Vânia Coutinho em sua mostra, que é como um livro onde sempre haverá algo a se ler, ou reler, sem que a história se torne menos interessante.
Estava presente na abertura o crítico de arte e curador da artista, o italiano Giancarlo Ottaviani, que nos brindou com uma inestimável palestra sobre o olhar artístico, que suprime dúvidas sobre o que é uma boa obra de arte, como apreciar uma obra de arte em seu valor supremo, a dança interna do espírito humano.
Vânia nos favoreceu com uma demonstração de sua técnica, ampliando a compreensão sobre seu processo criativo.
Ottaviani, também artista, fez uma excelente demonstração de talento, ao pintar, em poucos minutos, o retrato de Vânia Coutinho usando apenas um pincel e uma xícara de café.
A oportunidade ímpar de presenciar esses momentos inspiradores de elevada erudição, são o alto prêmio de se fazer presente em um evento desta natureza.
Serviço:
Vânia Coutinho
Exposição Maternidade
Galeria MOMA
Av. Rosa e Silva 670, Sobreloja, Edf. Antares.
Esquina da rua Amélia com Rosa e Silva.
De 11/03/2016 a 08/04/2016
das 15 às 19 hs.
Foi uma noite memorável. Reunidos no casarão Toyolex/Delta Café, no bairro das Graças, Recife, quinze artistas com os mais variados estilos e tendências, protagonizaram um dos mais belos espetáculos culturais que esta cidade já teve o prazer de vivenciar.
Em um local muito bem escolhido, pela riqueza arquitetônica, pela amplidão dos espaços, que se prestam perfeitamente a uma mostra de artes visuais, um conjunto gracioso de obras povoou as paredes, o belo chão de ladrilhos e a atmosfera dessa magnífica mansão.
O início desta ação entre amigos se deu de forma a aglutinar representantes do savoir faire das artes, fazendo um by pass, em relação ao circuito tradicional das galerias, costumeiramente fechado a inovações, atado a protocolos, curadorias, trocas de favores, que muitas vezes bloqueia o livre fluxo da manifestação cultural, cria portas, que os que se veem fora do mainstream encontram fechadas, e geralmente têm dificuldades para trespassar.
Como fazer então, para alcançar a visibilidade tão sonhada, tão necessária à cadeia de produção das artes plásticas, e outras manifestações culturais?
O Grupo 40 de Artes, demonstrou, com pleno poder, nesta quinta-feira, 03/03/2016, que isto é possível com muita união, empenho, profissionalismo, amor ao ato criativo, e com soluções inovadoras.
A inauguração da exposição Imagens e Seus Argumentos, foi um sucesso absoluto. A divulgação em todos os veículos de comunicação disponíveis, a receptividade da imprensa, dos blogs, foi algo a se destacar, revelando o poder da inventividade, a força da iniciativa e a volumosa energia que envolve um acontecimento dessa natureza, quando ele tem que acontecer.
O Recife precisava disto. De um revival das exposições de arte do antigo Atelier Coletivo, iniciativa tão memorável do saudoso Abelardo da Hora, e todos os grandes artistas que vieram em conjunto com essas mostras dos pintores e escultores da década de 50.
Vemos no Grupo 40 uma aglutinação natural, fervilhante, cheia de graça, de mentes criativas, de espíritos audazes, de corações abertos, nesta necessidade de expressar a manifestação artística tão importante para o espírito humano.
É isto que faz toda a diferença.
Quando um grupo se une, para somar, descartando tudo o que não convém ao sucesso de um empreendimento, o que se vê é o triunfo acontecer.
A artista plástica Dayse Pontes, que já vinha se destacando no universo do empreendedorismo das artes em Recife, pode somar mais esta gloriosa realização ao seu currículo.
Tudo fluiu como tinha que ser. Foram contatados artistas de renome no cenário local como o pintor, escultor e ceramista, Ferreira, para trazer mais experiência ao conjunto, que já contava com a participação do ícone da pintura em tela, Badida Campos, e assim a miscelânea de artistas, dentre os variados níveis de participação na atividade expositiva da arte em Pernambuco e no mundo, compôs uma saudável mistura que de maneira sucinta pretendo destacar a seguir.
Quero dar destaque em particular ao artista Flávio Barra, conhecido como Santo Forte nas Ruas, que numa tendência bem atual, veio das grafitagens no ambiente urbano, para o contexto da mostra com uma obra que tem a virtude de reunir simplicidade e bom gosto. Em um painel que, no salão de entrada, dá as boas vindas ao olhar com cores ricas e linhas graciosas que encantam à primeira vista.
Logo ao lado, a artista Nara Cavalcanti, com duas telas de grandes formatos, retrata um tema marcante da atualidade, em suas figuras que representam refugiados, em sua árdua migração na busca de uma vida melhor. Seus olhares tão profundos emocionam pela força com que a artista concentrou a emoção nos olhos daquelas pessoas, uma adulta e uma criança, que nos encaram como a afirmar os grandes dramas porque passaram e a indagar qual o futuro possível para a humanidade. Num toque de grande sutileza, a artista revela a sua esperança, numa mensagem cifrada ao pintar os insetos que aqui por "esperança" são conhecidos, pousados sobre os mantos das mulheres, deixando na alma o desejo de que uma vida nova seja o destino de quem sofre, para encontrar a paz.
Mosh é um abstracionista que traz obras de grande porte, impactantes, ora marcadas por um sóbrio entrecruzar de tons neutros, onde se destaca a luz, ora é um vibrante colorido, experimentado em diversidades de módulos que juntos fazem um rico painel de cores cativantes.
O escultor Alfredo Lima, também no salão de entrada, trouxe figuras magistralmente modeladas, com uma técnica muito pessoal e apurada, congrega materiais, intriga, pelo modo como transforma a resina em pedra, petróleo, carne, sangue e lágrima. Suas figuras revelam angústias comuns ao homem moderno, espremido dentro de uma realidade sufocante, lutando pela ânsia de viver, vivendo pelo anseio de sentir, querendo ar, querendo pensar, se vendo escravizado e agredido. Mesmo assim lutando para expandir-se e conquistar a liberdade. Um artista que tem muito a acrescentar a este mágico mundo da criação. Ainda se ouvirá falar muito dele.
Dayse Pontes é artista de uma técnica muito apurada, suas figuras delicadamente traçadas, tem um quê de teatral. É um simbolismo instigante, que aguça a percepção.
Roberto Botelho traz o contraponto. Em uma oposta parede lateral, diz com seus pontos sobrepostos o poder da semiótica, apresenta a interação entre cores, faz o cérebro dançar na ilusão de profundidades.
Murilo Santiago nos brindou com desenhos a nanquim, que numa impressionante riqueza de detalhes, refletem sobre a nossa relação com os objetos, o mundo das formas, os utilitários, os cacarecos e tudo isto se junta para compor um exercício de criatividade.
A essa altura o passeio já prende o espírito neste labirinto de curiosidades. Ao pé da escada, Beatriz Brenner fazia uma noite de autógrafos de seu livro TRACEJOS, onde com belas aquarelas conta o prazer de um passeio pela vida. Dá a quem não foi, o gosto de uma viagem à Áustria, em imagens tão cativantes quanto suas palavras.
Artista de múltiplos talentos, tem também suas telas expostas no casarão. Uma cena de casal, onde quase é possível sentir o intercâmbio de sentimentos entre os mesmos, e um pouco mais adiante uma curiosa reunião de cenas das pinturas de Van Gogh, onde com muita propriedade faz uma síntese da vida e da obra deste mestre da arte, num momento de grande inspiração.
Num link de sutilezas entre o dizer e o mostrar está ali presente, Badida Campos. A sua pintura é palavra pintada, são figuras que dizem grandezas da vida. Olhar uma tela de Badida é descobrir o quanto um longo processo de pesquisa visual, aliado ao sentimento inebriante de querer se expressar com pincéis, pode revelar uma obra riquíssima, que conquista fãs incondicionais por onde passa. Não sei o que dizer sobre esta grande dama das artes que Pernambuco teve a sorte de acolher. É só contemplar e se encantar com suas sutilezas. Suas imagens me inebriam, me roubam do mundo da razão, para os desvãos do insondável. É um universo paralelo. É isto o que se pode dizer sobre a grandeza de sua arte.
Na sala contígua, mais a ver.
Késia Duarte tem o olhar da fotografia, do silêncio que habita o momento.
Ezequiel Sá mescla a fotografia com a manipulação digital, exercendo o dom de impor-se ao tema.
Ao fundo algumas esculturas cerâmicas de Ferreira, retratam animais escatológicos, com intensa expressividade.
Uma tela de Marco Monaldi, com seu preciosismo clássico, fez muitos dos presentes se encantarem com o excelente trabalho de representação anatômica, e a temática dos anjos, deste artista advindo da academia florentina de artes da Itália.
Rikia Amaral é um exemplo da diversidade do grupo 40. Um grupo que de modo geral não se reúne por identidade visual mas, pelo contrário, cresce pela justaposição de opostos. As pinturas de Rikia são como a manifestação de um país das maravilhas ao avesso. A artista demonstra sentir o prazer de experimentar um plano criativo que congrega o bizarro e o mágico no mesmo contexto. Com simplicidade no desenho, e uma intrigante narrativa, não nos deixa passar indiferentes. Faz-nos, com suas imagens, percorrer os detalhes de suas telas, cheias de significados ocultos.
Para falar sobre a mostra Imagens e Seus Argumentos, há que se destacar o papel de todos que se irmanaram com a proposta, incluindo Claudionor Hollanda Filho, o Criolo, promotor e co-fundador do grupo; Verônica Lima, que coordenou vários aspectos da organização de uma mostra tão complexa e o fez com grande competência; Marcia Cabral, na intermediação que tornou possível a utilização do espaço Toyolex/Delta Café, a partir de então indelevelmente gravado na história da Arte em Pernambuco. No restaurante Casato Bistrô, no andar superior, há ainda uma extensão da mostra, num ambiente acolhedor e aconchegante.
Circulando pelo Casarão nessa noite tão agradável, foi de grande valor o encontro com o poeta Djair Vasconcelos, que com sua visão poética, muito contribuiu para a amarração do contexto cognitivo que transborda do conjunto da mostra. O mesmo estaria lançando o livro Armário, mas por infelicidade o libelo não ficou pronto a tempo. O que não nos impediu de ouvi-lo em sua poderosa recitação dos versos de sua autoria.
Com todo esse conjunto de informação, não se pode adentrar o Casarão sem sair de lá com a certeza de que se teve a oportunidade de vislumbrar um painel de ricas expressões culturais, que reforçam o poder e a importância da cultura e das artes na construção de uma sociedade mais justa e mais humana.
Serviço:
"IMAGENS E SEUS ARGUMENTOS"
Local: Casarão Toyolex/Delta Café
Av. Rui Barbosa, em frente ao colégio São Luis - Graças - Recife
A mostra vai até o dia 02 de abril de 2016.