Pouco antes de começar a produzir as obras desta exposição a ideia era expor pinturas de natureza abstrata, linha natural de meu trabalho, mas decidi mudar completamente, por razões que alguns amigos artistas conhecem bem, pois a eles contei de minha decepção com a aceitação da arte abstrata em Pernambuco.
Resolvi mudar então.
Se é assim, vamos jogar esse jogo.
Vou fazer aquilo que as pessoas adoram: "Ver-se" como diria o poeta Erikcson Luna.
Vou pintar o que lhes parece aceitável.
Não via mais a razão pela qual não pudesse, não devesse ou não o quisesse fazê-lo. Depois de quase trinta anos de pintura, nenhuma tarefa neste sentido me parece impossível.
Comecei então a pintar as telas figurativas com esse mote: A FORMA HUMANA.
Isso naturalmente no processo suscitou uma dezena de leituras, que interpenetram o tempo, a inteligência, o avanço tecnológico, a mais pura e simples expressão da dança, o beijo, o conflito entre o bem e o mal, enfim, tudo que é humano.
Eu sabia da dificuldade que teria, mas não me acovardei. Parti para cima das telas com a intenção de realizar esse desafio, como uma aposta para mim mesmo: QUINZE QUADROS, EM QUINZE DIAS.
Lancei-me então com determinação a essa árdua tarefa.
Hoje, grande parte das obras já finalizada, a dor muscular se tornou uma constante.
Os resultados foram os mais surpreendentes possíveis.
Foram quinze quadros para, na verdade, contar a história da humanidade.
E se um extra-terrestre se materializasse de repente, no melhor estilo Enterprise do seriado Star Trek, teria naquelas poucas telas, certamente uma sucinta informação sobre o nosso povo, a nossa civilização, enquanto espécie dominante no planeta Terra.
A arte é uma veia interessante da capacidade humana. Ela gera reações provocadas pelas combinações de informação, de imagens, no caso da arte da pintura, que reunindo-se falam algo sobre nós, sobre o universo inteiro, vai contando histórias mudas, lidas com os olhos...
Em razão disso me perguntei por que passei tanto tempo privando-me da oportunidade de contar algo através da pintura, em vez de ter uma estranha fixação na vontade de pintar abstrações, como a querer fugir do mundo... Mas, se eu não fosse assim, não seria artista.
Disse Van Gogh "É bem verdade, muitos artistas ficam loucos".
E essa "loucura", já tantas vezes discutida nos meios acadêmicos, algo que no passado seria realmente loucura, seria tido como a negação da normalidade, mas hoje em dia, o que é louco muda para alguém capaz de se dissociar permanentemente da realidade e incapaz de a ela retornar, o que naturalmente não é o meu caso, mas nos faz ver que nesses momentos em que nos desligamos da realidade isso é quase uma loucura. A mesma loucura que faz o trabalho em pintura parecer com a meditação, e ser vastamente utilizado em terapias ocupacionais e etc, porque faz a mente se desligar por alguns instantes. Como se aquele momento em que alguém saltou de um penhasco, se jogou para o alto, e por uma fração de segundos ficou parado entre o subir e o descer, como se aquele instante tivesse ficado congelado. Pois é isso exatamente o que acontece com o sujeito que pratica a ação de pintar muitas obras, de modo ininterrupto.
Fui dar um passeio ali na Terra da Ausência enquanto pintava as obras da exposição. De tão ausente, cheguei até a ser atropelado, mas me ergui e continuei.
Retornando dessa viagem onde os pensamentos me abandonaram por tantas horas seguidas, pintando incansavelmente, quase em transe, retorno para o planeta Terra e trago até vocês as telas da exposição ANTROPOMÓRFICO como um dos mais interessantes acontecimentos do meu tempo de artista, no ano do meu cinquentenário.
Aguardo vocês lá, um abraço.
EXPOSIÇÃO ANTROPOMÓRFICO
Local: Caldo de Boteco, rua do Sossego, 58, Recife-PE
De 05 de Julho a 06 de Agosto de 2016
Abertura 05 de Julho às 19 hs.




