Na coletiva, A PERMANÊNCIA DA ARTE, Humberto Magno, Aderbal Brandão, Maurício Arraes, José Barbosa, Eduardo Araújo e Luciano Pinheiro.
Toda a área da frente e a parte lateral dessa secular construção foi tomada por um delicioso ajuntamento de obras, que em poucos passos nos dá de presente a euforia de absorver a informação visual contida na produção desses vigorosos artistas, que com suas obras nos contam um trecho significativo da história da arte em Pernambuco, no Brasil e no mundo, pois é um patrimônio de criatividade, de poesia e beleza, que nos é ofertado de modo afetuoso pelos anfitriões da mostra.
A experiência artística, como introduz o texto de abertura, é um registro da experiência humana. É um acontecimento que veio amadurecendo desde as pinturas rupestres, transportando dos transes místicos do começo ao transbordar da expressão que revela um amálgama de sentimentos, que permeiam tanto as obras quanto a presença dos criadores, com suas vidas saturadas de cultura, de formação intelectual e exercício da sensibilidade.
Neste contexto, um passo que se dá ao universo da exposição é um transporte aos variados estímulos que nos alcançam como duendes, ou gnomos da percepção de toda essa história carregada de vida e apreço pela força do ato criativo.
Vemos, por exemplo, na parede que reúne imagens do fotógrafo Aderbal Brandão a viagem de um ser por este mágico planeta, colhendo amostras de cenas que desenham com luz a travessia da vida, no convés de um barco singrando os mares ao entardecer, nas paisagens criadas pela vegetação, pelas águas, mas também a paisagem da amizade, onde o mago das lentes nos presenteia com registros de seus amigos artistas, nomes importantes da história recente das artes visuais, como José de Barros, Gilvan Samico, Guita Charifker, que para os iniciados representam uma história de amor ao fazer criativo, os nossos valentes que afirmaram o poder da liberdade, nos tempos sombrios da ditadura em que o país mergulhou por mais de duas décadas.
Aderbal nos revela ainda o volume de seu livro onde registrada ficou uma vivência ao lado de Guita Charifker, considerada uma das melhores aquarelistas do Brasil. No seu atelier em Olinda, onde o ambiente era um convite à criatividade, cercada pelas plantas que num rico bordado envolviam o olhar, Guita se lançava ao ato de pintar, distraída enquanto Aderbal aguardava o momento ideal para registrar esse sagrado instante da artista, às voltas com seu mundo, às vezes desenhando, às vezes criando no espaço da alma, numa rede que balança, cercada de silêncio. São registros mágicos de belos momentos, deixados como sementes para fecundar a posteridade.
Eduardo Araújo vem com suas telas nos dar a dimensão da pesquisa, de um olhar ávido, com todas as forças reunidas em sua predisposição para a composição de imagens, vai se alimentando de tudo que encontra pela frente, seja um cesto de frutas ou uma tela de Marc Chagall, e revertendo em arte pura, de impulso vigoroso, como algo que não pode ser contido, e vem se juntar ao contexto de tudo.
Humberto Magno também é um personagem importante na história da arte em Olinda. Esteve presente em várias das grandes exposições que marcaram a trajetória dos artistas olindenses, afirmando sua força e projetando esse grupo no cenário nacional. Sua arte faz uma espécie de fagocitose do mundo real, para então regurgitá-lo de maneira simplificada, geometrizada, sem perder o contato com a maneira orgânica de compor imagens que associam a paisagem urbana, a natureza e a figura humana, de maneira muito pessoal, como impressões condensadas, que se delineiam com intensidade para fazer brotar a conjugação de tudo que representa o estar contido no mundo.
José Barbosa é um artista visionário. Suas imagens contam contos de reinos fantásticos, de rica natureza, certamente influenciada pelos quintais de Olinda, que são cenários mágicos onde a arte encontra um suprimento de fantasia e de exuberância que irrigam a imaginação. Trafegando com firmeza por várias técnicas, como o tradicional baixo relevo entalhado na madeira, expressão de arte que anda um pouco esquecida, mas que foi muito comum nos anos 70/80 onde era possível encontrar muitos entalhadores exercendo seu ofício e vendendo suas obras nas ladeiras de Olinda. Mas o artista, dotado de muitos recursos, vai além disso com pinturas que impressionam pela riqueza de detalhes, onde os elementos pictóricos, fruto de sua própria iconografia, vêm se somar com intensidade na apresentação de alegorias visuais de grande poder.
Luciano Pinheiro é um artista cuja obra deve ser alvo de atenção por todos os que se interessam pelo legado da arte mundial. A pintura de Pinheiro, como no artista catalão Juan Miró é um processo de definição de elementos escolhidos por uma força organizadora, que vai reunindo o que deve fazer parte do seu mundo. O desenho é único, e ao se avistar uma obra de Luciano Pinheiro têm-se a imediata identificação do artista, dado à originalidade conquistada também pela restrição das cores, em geral o amarelo, o azul, o vermelho e o verde, contornados em alguns momentos por um firme traço escuro, que organiza tudo. Vale destacar o vigor de sua capacidade de composição, a intensidade que emana das obras como um orgasmo visual, que vem da boa utilização das proporções, onde a cor pura, em planos amplos, vai se repartindo em pinceladas como jorros de elementos que se juntam na composição de paisagens mentais, arranjadas com maestria.
Maurício Arraes é um artista que incorpora com muita propriedade o humano em sua representação de cenas urbanas. A sua arte carregada de um sentimento lírico, tem um traço rico, cativante. Passeia com naturalildade por todos os ambientes, interessado em destacar as cenas simples que carregam de vida os lugares onde o ser humano transforma a paisagem no cenário onde experimenta o exercício de viver. Suas cores suaves conferem ao observador um estado de contemplatividade onde surge uma predisposição ao mergulho no contexto pictórico.
Dentro dessa configuração de fortes manifestações do espírito criador, que é A PERMANÊNCIA DA ARTE, quem tem a bem aventurança de adentrar esse microcosmos de pura irradiação artística, é envolto numa bolha transmutadora de estados de alma, revertendo tudo para uma ordem superior, onde o ser se sente guiado ao que há de imortal em sua passagem pelo tempo.
A mostra segue até o dia 20 de dezembro de 2015. Restam poucos dias para quem pretende se deleitar num ambiente que reúne a contemplação da arte e a camaradagem desses magníficos artistas, que os receberão de maneira acolhedora, conjuntamente com a graça e simpatia da produtora cultural Marleth Reis, da Ponte Produções, no espaço de exposições de Luciano Pinheiro.
Serviço:
A PERMANÊNCIA DA ARTE
Rua Bispo Coutinho, 828, Alto da Sé, Olinda.
Tel. 3429.0232
Horários: Quintas, sextas e sábados das 16 às 21 hs.
Outros dias e horários mediante agendamento
Marleth Reis, cel 99755.4475, ponte@ponteproducoes.com.br









