domingo, 6 de dezembro de 2015

BORA!

Quando a cultura é uma forma de lazer, motivo de encontro e descontração, e também um fator de prosperidade para os que nesse campo atuam, podemos ter a satisfação de encontrar no ambiente urbano o somatório de portais que se abrem, pela livre iniciativa, em recantos comerciais da cidade como um simples shopping center, onde o afluir de um fluxo  humano de congraçamento, e contemplação da habilidade das mãos é uma experiência enriquecedora.

Foi assim no BORA, neste sábado dia 05 de dezembro.

Em uma galeria no Shopping Paço Alfândega, um evento multicultural, envolvendo artes, artesanato, industrianato e outras manifestações do engenho de cada um, uma galera legal compareceu, irradiando luz, dando o ar da graça. Numa microfeira bem animada, com um quê dos ancestrais Mercado Mundo Mix, todos os participantes da mostra estavam ali como pessoas geniais que são, favorecendo-nos com sua criatividade, e gentilmente a postos para interessantes explanações sobre seus trabalhos, suas obras, a fonte de inspiração, ou os detalhes em que a singularidade dos seus espíritos se revela.

Há que se aplaudir um acontecimento como este. Pois ao despertar de um novo dia nos lembramos das cenas como se um teatro interessantíssimo tivesse acontecido no espaço da galeria. Com direito até a algumas pequenas palestras em um palco muito bem pensado. 
Isso é demonstração de competência. É valorização da arte, do design e da cultura como um todo a tal ponto que se vê o quanto a cultura é um fundamento da educação. São pessoas cheias de talento e de valor, a se fundir numa grande mente, altamente inteligente, empreendedora, com iniciativa e cheia de recursos.

Bem, para falar sobre algumas Obras observadas em exposição neste ambiente bem democrático, onde se vai limpando o ranço do preconceito, no qual os artistas para se "valorizar" não podem se misturar com os novos. Vê-se no BORA artistas com maior formação e experiência, expondo ao lado de jovens que mal iniciam a sua relação com o fazer criativo. Numa evidente demonstração de que realmente não há porque um artista não ser capaz de manifestar humildade, favorecendo a todos com participações no máximo possível de exposições coletivas, e brindando-nos com a sua presença.

Sem mais delongas, ao chegar no Paço Alfândega, neste sábado, procurando a localização do evento, de longe avisto dois retratos, bem acadêmicos, olhando-nos, como a nos convidar, com seus olhos desafiadores. Eram as pinturas de Nara Cavalcanti, uma refinada artista de projeção internacional, nascida em Recife, apresentando a escultora Camille Claudel, e outro do pintor Claude Monet.
Mesmo quem não conhece esses personagens da nossa história, se detém a observar com admiração a habilidade nos pincéis da artista, sua maestria na resolução dos olhos, e demais aspectos da composição, como os fios de cabelo, os detalhes da roupa, tudo bem posto como o faria um Eduard Manet.
O retrato de Camille Claudel por exemplo é, talvez pela identificação com a essência feminina, o mais impactante. Seu olhar parece um grito silencioso, a pedir socorro, a indagar o por quê de toda a angústia.
São telas que conseguem transmitir o misto de admiração e respeito que infundem os personagens. A artista conquista a luz com suas figuras de olhar franco e penetrante. É como se as personalidades ali representadas, tivessem parado um pouco, sob a luz da imortalidade e dos paraísos celestiais se deixado registrar pelo olhar da pintora.

Sem correr o risco de me estender muito, vale destacar o empenho de Nara Cavalcanti em aprimorar cada vez mais sua arte. A artista comenta que costuma se hospedar em um monastério italiano, com a única determinação de ir aos museus e academias da Itália, a fim de se dedicar ao desenho, na proximidade dos mestres da antiguidade clássica. Pelo que se vê têm sido de grande proveito essas temporadas.

Mudando o foco agora para os outros participantes gostaria de destacar os desenhos a bico de pena de Caio Neiva, muito delicados, em seus traços finos.

Também o BROS, artista de desenho expressivo, que trabalha com técnicas mistas, dando mostras de que no complexo da cidade, tudo é anormalidade, em constante mutação, com colagens, aerografias e tinta à base de PVA.

Dentro da galeria também é possível encontrar o artista multimeios JP, o João Pessoa, que em uma de suas pinturas, vai mostrando maneiras inteligentes de trabalhar com figuras geométricas, como as malhas, que são espaços abertos entre os nós de uma rede visual. O resultado é intrigante como as pinturas da Optical Art dos anos cinquenta, porém mais humanizadas, pois o artista valoriza os tremores naturais das mãos para que o resultado não seja frio, e distante. Aproximação que consegue também pelo uso de cores quentes.

E vários e vários outros artistas alí estavam presentes como Emerson Pontes, com o seu personalíssimo design dos grãos que fazem florir, demonstrando que sempre vem coisa boa por aí. 

De modo geral o que se vê por toda parte é o talento coletivo, num acontecimento que vale a pena conferir. Bora?











Serviço:

Espaço Bora.
Paço Alfândega, Bairro do Recife.